A própria carne chorou [Larissa Prado]
Cardumes de peixes saltando da boca, escorrendo com o pranto. Essas lágrimas lavam o mundo, levam embora tudo que está ruindo. Cardumes de peixes que acendem e apagam, engoli vários, os ovos eclodiram dentro da minha garganta.
Tentei manter a boca fechada e o choro preso, a barragem rompeu. Mas eu sei nadar, eu sabia, mas não sei mais. Afogo dentro do meu próprio sangue. Sei que cortaram minha garganta e consegui respirar melhor através do corte. Supliquei que cortassem o resto, abrissem fendas no peito para o coração pulsar a dor para fora. Mas costuraram minha garganta e arrotei peixes, cardumes, pequenos anfíbios. Não querem que eu vá embora. Insistem para que fique, tenho algo a fazer, um papel a cumprir, mas não sei como. Roubei a lâmina do armário da enfermaria, abri os pontos na carne, e a própria carne chorou. A árvore quando cai faz ruído de bebê ao nascer.
Eu escutei meu choro como um filhote de algo inumano. Cortei mais fundo, silenciei a voz, expeli ar, eu falo palavras de ar, eu falo com deus e com demônios. Expandi a área do corte até a orelha. Alívio. A dor vira ar. Sopra forte, vai embora. Não jorro, não sangro, às vezes apenas vento.
